Há algum tempo, eu estava em uma palestra, em um dos templos religiosos da cidade. E quando já estávamos acomodados no banco de madeira, eis que adentra o recinto um sujeito, caminhando em nossa direção e sentando-se ao meu lado.
No “arriar das malas”, ele foi logo mostrando a sua tremenda falta de educação e princípios. Começou, abrindo demasiadamente as pernas e apoiando os cotovelos no recosto do banco. Tivemos de nos espremer para permitir o conforto daquele indivíduo.
Passados alguns minutos, ele começou a dar o seu show particular: enfiou o indicador da mão direita no ouvido direito e passou a friccioná-lo sem cerimônia alguma. Parecia até que ele estava em casa, à mesa, com os seus familiares.
De vez em quando, ele retirava o dedo do ouvido e dava aquela olhadinha para a ponta da unha, como para verificar “in loco” a quantidade de cera que havia retirado.
Todos que viam aquela cena estavam constrangidos, menos o cara, é claro.
Ninguém prestava mais atenção ao palestrante que, diga-se de passagem, era muito bom.
Aí, o pior aconteceu: o indivíduo meteu o dedo no nariz e começou a “limpar o salão”. O próprio palestrante estava constrangido. Parecia até mesmo desconcentrado. E o sujeito continuava como se estivesse fazendo a coisa mais natural do mundo. Enfiava o dedo no nariz, olhava a ponta do mesmo e depois o baixava para limpar, ora na quina do banco, ora na própria calça.
Para que o show ficasse completo, só estava faltando ele bufar e arrotar... E eu fiquei me perguntando: será que alguém vai ter a coragem de apertar a mão desse sujeito, na hora da saída?
Após o término da palestra, passou a acontecer um momento de confraternização espontânea entre os presentes. Todos iam se abraçando e se cumprimentando, efusivamente. Saímos como um raio de perto daquela criatura, temerosos de que ele viesse a querer apertar nossas mãos com aqueles dedos sujos de meleca e cera.
Mas ele pareceu que não queria entregar os pontos assim tão facilmente. Caminhou resoluto em direção ao próprio dirigente do culto e já com a mão direita estirada. Este, ao perceber a intenção do cara, ficou estático e deve ter pensado: “E agora? O que é que eu faço? O que o Mestre faria? Mas, seja lá o que for, não vou apertar a mão desse sujeito, nem que a água vire vinho e o vinho vire água”. (Cá, cá, cá, cá!)
E, meio que discretamente, foi se virando para apanhar alguma coisa ou como quem vai falar com alguém.
O indivíduo, percebendo a manobra, deu meia volta no púlpito a fim de surpreendê-lo de frente. (Cá, cá, cá, cá!)
Tudo se deu no espaço de um minuto: o tecladista, carregando seu instrumento, esbarrou-se sem querer no cara, enquanto alguém chamava pelo pastor, naquela mesma direção. O tombo foi o suficiente para fazê-lo erguer um pouco a mão direita e encontrar a boca do pastor que se virava naquele momento.
Os dedos ensebados de meleca e cera foram direto nos lábios do pastor que, aos poucos, foi sentindo um gostinho salgado e indigesto, enquanto aceitava as desculpas do rapaz, que dizia: “A paz do senhor, irmão”.