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Cíntia Portugal
Cintia Portugal de Almeida nasceu em Feira de Santana- Bahia, tendo sido graduada em Letras com Francês pela Universidade Estadual de Feira de Santana, (UEFS), Brasil. Mestre em Estudos Literários pela Universidade de Feira de Santana (UEFS), com a dissertação “O poeta, a Rua e o Romantismo: a produção literária de Sales Barbosa” (2016). Autora do livro “Caminhando pela Cidade: crônicas sobre as ruas, praças e becos de Feira de Santana –BA” (Via Literarum -2013), articulista do Jornal Folha do Norte, com a Coluna Caminhando pela Cidade, é Membro do GELC: Grupo de Estudos Literários Contemporâneos – UEFS e tem ensaios publicados em revistas acadêmicas e anais de congressos de Literatura. Participou do estudo vinculado ao PROCAD/Projeto Escritas Contemporâneas/Programa de Cooperação Acadêmica/ CAPES – Intercâmbio do PROGEL-UEFS com a PUC/Rio.






CÍNTIA, SALES E OUTROS CANTOS

A Santa de Pedro: dia retocado


Publicado em: 10/01/2017 - 11:01:39


Nesta bendita data, por volta de 1984, o “escolhido” de Anguera, anunciou a seguinte mensagem da Santa: “quem estiver com o coração puro, sem pecados, tocará em mim”.  Por alguns momentos, um flash de Francisco, Lúcia, Jacinta, Santa Bernadete, Santa Terezinha, Goretti...

Quiça puxar o manto, beijá-la na face, tocar as mãos... 

Nesse tempo, com 14 anos, vovó me convenceu com o rosário entre os dedos, rezando, rogando, nas idas e vindas pelo corredor da casa, da Rua de Aurora.

Já Monsenhor Renato Galvão  perdeu as estribeiras: _ a igreja não pode se envolver, Dona Nair! Não, não posso! Pelo amor de Deus!! Não!!!

Minha avó saiu da Sacristia atiçando fogo pelas ventas! Acordando as pragas do Egito. Por um instante, não passariam de um susto para  espantar  soluços.

Confessei! Confessei! E para me assegurar da limpeza, do descarrego, já na fila quilométrica do  toque, confessei-me novamente, desta vez  com o padre de plantão.

Exalava pureza! Tão anjo, tão santa, que fiquei com medo do Espírito Santo, ou de ser tentada  pelo diabo....

Vovô Leopoldo cochilando na cadeira... os ônibus, as kombis, carros, não paravam de chegar... gente de todo canto.

 Era minha vez! Corri novamente até o Padre, já estressado, e confessei os pensamentos impuros: o sol insuportável, a poeira irritante, a sede violenta, não ajudaram.

Agora sim, eu, Pedro de joelhos e a Santa! Ela nem tchun pra mim. Imaginando: o que ele tanto conversava com a Rainha da Paz... Péssima de leitura labial.  O problema é que eu já estava pecando por conta da impaciência.

Pedi perdão pela falta, mas acho que Ela não escutou! Tocava, Tocava, tocava o ar, o calor, pensando nas diversas formas de segurar a cena, desejava sentir seu manto macio, aveludado, acetinado, a pele, o calor... Pelejei...

Pedro percebeu meu desespero e segurou a minha mão, como quem conduz uma escrita, um desenho.  Tentei, tentamos!  Ficou a lembrança do  dia do “não me toques”, da Santa de  Anguera, contudo, guardo outras imagens em outros cantos: oratórios  e no meu coração.

Naquele dia, só a mulher de azul disse ter tocado na santa...

Possivelmente,  a vontade de tocar na mãe de Deus tenha sido  tão grande que nem percebi o afago de suas mãos delicadas.

 

                                                         

 



Fonte: Cintia Portugak







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