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DEUS ME LIVRE


Publicado em: 11/07/2020 - 17:07:47
Fonte: Luís Pimentel


     O governador mandou: é só mirar na cabecinha e... fogo! O presidente referendou: qualquer coisa, é só recorrer ao excludente de ilicitude! O que é isso? Eu também não sabia. Legítima defesa, estrito cumprimento do dever legal, exercício regular de direito, essas bossas. A gente dá os pipocos e a Justiça pipoca na hora certa. Certo? É do jogo, chefia. Se não sabe joga, recolhe os instrumentos e pica a mula.
     Estão fazendo é muita tempestade em copo de sangue com o negócio dos tirinhos que a gente andou distribuindo. Sei lá quantos! Fui lá contar? Tinha mais o que fazer com o dedo naquele momento. Setenta, cento e setenta, setecentos, que diferença faz?
     Estavam a vítima, a mulher da vítima, o filhinho da vítima, o sogro da vítima, tudo armado até os dentes! Não fizeram disparos? Claro que não, não deu tempo, nós agimos antes. E ainda teve o tal do inocente que foi tentar salvar os comparsas! Conversa...
     Sou da polícia, da milícia, da malícia... conheço essas malandragens.
     Na operação lá no Morro do Sapo foi a mesma coisa. Fomos recebidos com violência e revidamos. Eu mesmo, quando botei a cara na janela do barraco recebi um salto de sapato nos peitos, que sujou até a farda, que é indumentária sagrada. Descarreguei minha raiva, a metralha de 193 azeitonas. Se acertou alguém? Não fui conferir. Se alguém morreu, quem matou mesmo foi a Previdência, perdão, a Providência Divina.
     É só mirar na cabecinha que o excludente exclui o flagrante!
    Povo fica aí dizendo que massacre, covardia, chacina, sei lá o quê! No confronto, a blusa da farda do cabo Tonho ficou faltando um botão, que eles arrancaram só para desmoralizar a corporação. Periquito come chumbo, papagaio é justiçado e macaco leva a culpa. É sempre assim. Teve tortura nenhuma! Espancamento nenhum!! Eu só puxei a orelha de um, para obriga-lo a devolver o quepe do sargento!!! Quando ele devolveu o quepe, eu devolvi a orelha, e pronto...
     O senhor não viu a história aí do garoto que morreu por engano, na Cidade de Deus? Tão fazendo o maior barulho, porque o menino era moreno, olhos verdes, devia ter um metro e meio de altura, e o confundimos com o Espanador, crioulão de dois metros e pouco, trafica da pesada. Foi no meio do tiroteio, Cidade de Deus é balneário do diabo, o que o infeliz do menino estava fazendo lá, morando lá? Por que não morava em Botafogo, Gávea, Copacabana ou Ipanema, como todo mundo?
     Eu também tenho coração, doutor. Bota a mão aqui, pro senhor ouvir os disparos do bichão. Também me emociono, choro em castramento, perdão, casamento, e despedidas. Não tenho medo de processo – tenho um monte deles guardado em casa.   
     Não quero é ser preso, de jeito nenhum.
     Essa noite eu tive um pesadelo horrível! Uns homens mal encarados invadiam minha casa, me arrancavam da cama, me espancavam na presença das crianças, depois me arrastavam pelo pijama até um camburão, perdão, um caminhão. Acordei chorando, pedindo pelo amor de Deus que não me matassem. Mas os insensíveis não escutavam. 
     Deus me livre dessa má hora.



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